Quem der o play em Meu Querido Assassino esperando um festival de tiroteios à John Wick pode estranhar o ritmo. O novo longa tailandês da Netflix usa a catarse da pancadaria só quando serve ao enredo, preferindo focar em temas como autonomia sobre o próprio corpo e o peso da proteção que aprisiona.
Dirigido por Taweewat Wantha, o filme alcançou nota 7,0 no TMDB e já chama a atenção do público que surfou o sucesso de Hunger. Mas será que a mistura de drama e violência crua funciona? O ThunderWave analisou os pontos altos e baixos da produção.
Premissa sangrenta e questionamentos de identidade
No centro da trama está Lhan, interpretada pela estrela Baifern Pimchanok. A jovem possui o raríssimo “sangue Aurum”, tão valioso no mercado negro que assassinos matam para obtê-lo. Ainda criança, ela vê os pais exterminados e passa a viver sob a asa da lendária Casa 89, clã de matadores que promete proteção absoluta.
O roteiro de Wattana Weerayawattana parte dessa base para cutucar uma ferida social: proteger alguém a todo custo pode ser sinônimo de controlá-lo? Meu Querido Assassino apresenta o cativeiro disfarçado de cuidado, colocando Lhan como ativo, não como pessoa. A discussão rende bons diálogos e afasta o filme do molde de ação rasa.
Protagonistas carismáticos seguram o roteiro
Grande parte do apelo dramático vem da atuação de Baifern Pimchanok. A atriz transita entre fragilidade e determinação com naturalidade e entrega cenas físicas intensas. Sua Lhan convence justamente porque não vira máquina de matar de uma hora para outra; a evolução acontece aos poucos.
Ao lado dela, Tor Thanapob vive Pran, membro da Casa 89 que questiona a hierarquia quando se aproxima da protagonista. A química entre os dois cresce a partir da desconfiança, evitando o romance fácil. Essa tensão sustenta boa parte do segundo ato, mesmo quando o ritmo desacelera.
Quando a ação explode, a brutalidade convence
Wantha, veterano do terror, leva o realismo gráfico para cada confronto. Facas rasgam, ossos estalam e a câmera não corta na hora do impacto. A escolha de planos longos e edição limpa lembra o cinema de artes marciais dos anos 2000, permitindo ver cada golpe com clareza.

Imagem: causa de seu sangue raro
Embora esparsas, as sequências de luta justificam a espera. Há uso criativo de cenários apertados, iluminação de neon e coreografias que priorizam o peso dos corpos — nada de inimigos voando a CGI. Quando o sangue voa, o espectador sente a gravidade da situação.
Pontos que escorregam no ritmo e na mitologia
Nem tudo é acerto. Com 2 h 07 min, Meu Querido Assassino apresenta um miolo que poderia perder 30 minutos sem prejuízo. A narrativa gasta tempo demais reiterando a angústia de Lhan, o que pode cansar quem procura adrenalina constante.
Além disso, a Casa 89 é pintada como organização lendária, mas o filme não aprofunda suas regras ou história. Personagens secundários surgem mais como funções — guarda-costas, informante, antagonista de plantão — do que como indivíduos. Esse esboço prejudica o impacto emocional de determinadas mortes e traições no terceiro ato.
Vale a pena assistir Meu Querido Assassino?
Se você quer um thriller asiático temperado com drama sólido, personagens bem defendidos e doses de violência crua, sim, a produção tailandesa merece lugar na sua lista. Quem procura ação nonstop talvez abandone a sessão antes dos créditos — cena extra incluída. No fim, Meu Querido Assassino acerta ao entregar algo próprio, ainda que imperfeito, e reforça a crescente presença do cinema tailandês no streaming global.

