A Netflix lançou, em 16 de abril de 2026, uma comédia chamada “Primeiro as Damas” que tem como premissa explorar um mundo onde homens e mulheres trocam de posição social. A proposta parecia promissora, prometendo reflexão sobre desigualdade de gênero. No entanto, o que começou com uma ideia inteligente acabou se mostrando um exemplo de como uma premissa interessante pode ser mal explorada na prática.
O filme tenta mostrar uma inversão completa de papéis sociais, onde mulheres ocupam cargos de poder e os homens enfrentam o machismo cotidiano. O objetivo é gerar uma reflexão sobre desigualdade, mas a execução escora-se em piadas repetitivas e uma abordagem superficial que pouco acrescenta. O resultado é uma produção cansativa, que parece não entender a sua própria ideia, transformando uma sátira prometida em uma comédia de humor constrangedor.
Quando Investir na Inversão Não Garante Sátira de Qualidade
O roteiro de “Primeiro as Damas” opta por um humor baseado na inversão de pronomes, o que, por si só, não garante uma sátira inteligente. Damien Sachs, interpretado por Sacha Baron Cohen, é um publicitário machista que, após um acidente, acorda vivendo a realidade oposta. Ele passa a vivenciar as dificuldades que mulheres enfrentam há décadas, como assédio e menosprezo no ambiente de trabalho.
Apesar da premissa, o filme não consegue dar profundidade à abordagem. As cenas se repetem, com piadas que exploram estereótipos de forma previsível e sem criatividade. Em vez de usar a inversão como ferramenta de crítica social, o roteiro empapa tudo de situações banais, que pouco refletem o verdadeiro problema da desigualdade de gênero.
A Frustração com o Elenco e a Direção
Um dos maiores problemas da produção é o uso do elenco, que poderia ter sido uma vantagem. Rosamund Pike consegue, em alguns momentos, dar nuances ao papel de uma executiva que finalmente conquista o poder. Sua atuação tenta transmitir as contradições de uma mulher que sai da invisibilidade para uma posição de destaque, mas o roteiro limita suas possibilidades.
Já Sacha Baron Cohen, conhecido por sua habilidade de criar personagens absurdos e cativantes, aparece completamente perdido na sua participação. Sua falta de carisma e a ausência de uma química convincente com Pike deixam as cenas com um tom artificial, que prejudica ainda mais o resultado final. A direção da Thea Sharrock também não ajuda, com cenas que parecem forçadas e um universo corporativo pouco crível. Tudo parece uma montagem genérica, pouco inspirado.
O Humor Constrangedor Como Estrutura do Filme
O que deveria ser uma sátira social forte se perde em um humor que chega a ser constrangedor. As situações exageradas, como homens tendo dificuldades em usar roupas básicas ou sendo tocados sem consentimento, soam mais como piadas de anos 2000 do que uma crítica relevante.
A estratégia de exagerar estilos de humor ultrapassados acaba diluindo qualquer crítica que o filme tenta fazer sobre desigualdade de gênero. É evidente que há uma tentativa de questionar o machismo, mas ela se perde num desfile de cenas que parecem mais gags desconexas do que uma reflexão articulada.
Por Que “Primeiro as Damas” Não Vale a Pena
Quem espera uma abordagem inteligente sobre temas atuais sairá decepcionado. Apesar de sua curta duração de 84 minutos, o filme consegue parecer exaustivo, arrastado e sem impacto. A tentativa de chocar com situações absurdas e caricatas não traz nada de novo, muito pelo contrário.
A cinematografia pouco destaca e o visual da produção parece artificial, reforçando a sensação de que tudo foi feito às pressas. A direção é inconsistente, deixando o roteiro que tenta explorar um tema sensível de forma rasa e até preguiçosa.
O que vale a pena em “Primeiro as Damas”
Apesar de todos os problemas, a produção apresenta alguns momentos onde o elenco tenta gerar empatia e trazer uma leveza à narrativa. Rosamund Pike, por exemplo, consegue seduzir com um papel que tinha potencial de explorar as contradições de uma mulher em ascensão. No entanto, esses momentos se perdem na mesmice do roteiro.
A tentativa de refletir sobre desigualdade de gênero via inversão de papéis não é nova, mas poderia ter sido uma oportunidade de criar discussões mais inteligentes. O problema é que o filme opta pelo caminho fácil e superficial, garantindo apenas uma experiência mediada por piadas previsíveis.
Vale a pena assistir? Uma avaliação rápida
Para quem busca uma comédia que realmente explore temas atuais de maneira inteligente, “Primeiro as Damas” não é uma opção recomendada. Apesar de uma premissa que poderia render boas reflexões, ela é jogada fora por um roteiro fraco, piadas repetitivas e atuações que não se sustentam.
Se você quer entender como uma produção pode desperdiçar potencial olhando apenas para o humor mais imediato e sem profundidade, essa é uma boa representação. No geral, o filme termina deixando aquele gostinho de desperdício, que poderia ter sido evitado com uma abordagem mais cuidadosa.
Conclusão: Vale a pena?
Para quem gosta de críticas sociais com humor inteligente, essa comédia da Netflix talvez nem mereça uma segunda chance. Mas, para os fãs de comédia de humor constrangedor, ela serve como exemplo de como não fazer uma sátira relevante.

Imagem: Ti Morais

