O lançamento de Backrooms: Um Não-Lugar trouxe grande expectativa para fãs de terror e da cultura pop. Com direção de Kane Parsons, criador do vídeo viral que popularizou os corredores amarelados na internet, o longa tenta transformar o mito em uma experiência cinematográfica. A chegada ao Brasil, em sessões entre 27 e 28 de maio, mostrou uma aposta forte do mercado em um projeto que saiu do universo do YouTube para as salas de cinema. Mas será que a produção mantém a força da lenda original?
Baseado no fenômeno que surgiu em 2019, o filme expande a ideia de corredores infinitos com estética minimalista e atmosfera de desorientação. A história acompanha Clark, interpretado por Chiwetel Ejiofor, e sua terapeuta, Mary, vivida por Renate Reinsve, presos em um espaço sem lógica que parece refletir os traumas de cada um. A proposta é usar o cenário como uma linguagem visual de medo e confusão, deixando de lado explicações convencionais para manter o mistério.
O que é Backrooms: Um Não-Lugar e de onde vem essa história?
O mito dos Backrooms começou como uma imagem simples em um fórum online, mostrando um corredor vazio, carpete amarelo e luz fluorescente, que provocava instantaneamente a sensação de algo errado. Com o tempo, esse conceito virou uma franquia de terror, graças ao vídeo do criador Kane Parsons, que aos 16 anos popularizou os corredores como um espaço assustador e surreal. O filme tenta ampliar essa ideia, trazendo personagens que enfrentam esses espaços infinitos, que parecem materializar seus traumas profundos.
A narrativa do longa não só aposta na estética do medo, mas também na sensação de desconexão sensorial. A intenção é que o espectador se sinta perdido junto com Clark e Mary dentro desses corredores que parecem não ter fim. A direção de Parsons busca aprofundar essa experiência com uma linguagem que mistura silêncio, luz e espaços vazios, como se fossem elementos de uma verdadeira angústia visual.
Um começo promissor: acertos na primeira metade do filme
Desde o início, Backrooms: Um Não-Lugar consegue transmitir a essência do que mais inquieta na lenda dos corredores amarelos. Parsons demonstra ter assimilado o que faz esse mito ser tão perturbador: a falta de uma explicação clara. Os primeiros minutos são quase uma aula de imersão sensorial, com planos abertos e ângulos que parecem acompanhar cada movimento, reforçando a sensação de ser um observador invisível.
A edição de som também merece destaque. O zumbido constante das lâmpadas fluorescentes, combinado com ruídos que surgem de lugares aleatórios, ajuda a criar um ambiente que parece vivo. A paleta de cores amareladas reforça o sentimento de inquietação, enquanto sequências em found footage pontuam momentos de maior tensão, trazendo uma estética que conecta o público às emoções de um terror primitivo e visceral.
Chiwetel Ejiofor se sai muito bem ao transmitir o desgaste de Clark, um homem que já está cansado antes de pisar nos corredores. Sua atuação consegue captar esse peso emocional sem exageros, enquanto Renate Reinsve entrega uma personagem vulnerável que contrabalança a solidão do protagonista. A química entre eles é suficiente para sustentar a tensão psicológica que o roteiro propõe em sua primeira fase.
Por que o filme perde força na segunda metade?
A partir de certo momento, a adaptação do mito vira uma armadilha. Quando Parsons tenta explicar o que antes era um mistério, Backrooms: Um Não-Lugar começa a se contradizer. Os corredores deixam de ser ameaças indecifráveis e passam a ser metáforas explícitas das emoções dos personagens. As ambiguidades que funcionam na lenda original desaparecem, e o filme passa a tentar dar respostas que, na verdade, enfraquecem seu impacto.
Fazer o espaço como representação do trauma é uma boa ideia, mas a forma como o roteiro faz isso mostra uma tentativa de guiar o público por um caminho previsível. Isso vai contra a essência do mito: o desconhecido, o inexplicável. Dessa forma, a sensação de suspense começa a diminuir e a atmosfera de mistério se perde.
Outro ponto fraco é o desenvolvimento emocional dos personagens. As sessões de terapia e os flashbacks oferecem informações, mas não criam uma ligação genuína com o público. Assim, quando as revelações finais chegam, elas parecem vazias, pois o envolvimento emocional necessário para que façam sentido não foi construído desde o começo.
Vale a pena assistir Backrooms: Um Não-Lugar no cinema?
Sim, especialmente se o espectador entrar com expectativas moderadas. A avaliação de 3,5 estrelas em críticas indica um filme equilibrado: com acertos visuais e atmosféricos, mas que escorrega na sua parte final. Para quem já conhece a origem do mito, o primeiro ato é quase uma homenagem às raízes do terror dos corredores amarelados, e Parsons faz um bom trabalho ao transitar do viral para as telas.
Por outro lado, a própria direção parece duvidar do que criou. A ideia de que o horror sem explicação funciona justamente por sua ambiguidade é abandonada na fase final, dando lugar a uma narrativa mais convencional. O antigo mistério se perde ao tentar explicar demais, comprometendo parte da força do mito original.
Dessa forma, o filme funciona melhor quando mantém o mistério. Quanto mais ele tenta racionalizar o não-lugar, mais perde sua autenticidade. Para quem busca uma experiência que capture a essência dos corredores sem lógica, Backrooms: Um Não-Lugar até entrega momentos de tensão eficaz, mas não chega a inovar ou surpreender de forma definitiva.
O que fazer se você é fã da lenda?
Para quem gosta de animes, séries ou filmes de terror mais voltados à atmosfera do que à explicação lógica, o longa traz uma experiência visual interessante. No entanto, é importante lembrar que ele não mantém o mistério até o final, o que pode frustrar os fãs mais puristas da mitologia viral. No geral, vale assistir no cinema com expectativas ajustadas, evitando esperar respostas a todo custo.
Imagem: Thais Bentlin

