Quando a Disney anunciou o remake live-action de Moana, muitos fãs esperavam uma releitura que trouxesse uma nova dimensão à história já consagrada em 2016. Afinal, com o sucesso de outros remakes no final dos anos 2010, havia a expectativa de que essa produção entregasse algo inovador e respeitasse a riqueza cultural polinésia com profundidade e sensibilidade. No entanto, o filme que chegou aos cinemas em 2026 decepciona ao mostrar uma narrativa que soa mais como uma repetição pálida do original do que uma reinvenção cheia de alma.
O remake mantém praticamente todos os elementos da versão animada: a jornada de Moana em Motunui, sua parceria com o semideus Maui para restaurar o coração da deusa Te Fiti, e a luta contra o monstro Te Ka. A fidelidade ao roteiro original é quase absoluta, mas essa escolha, em vez de valorizar a obra, acaba por expor a falta de uma visão artística única. O longa não acrescenta nada novo ao enredo e peca pela ausência de ritmo e emoção, deixando o espectador com a sensação de estar assistindo a uma versão estéril e desprovida do encanto que marcou o desenho.
Fidelidade ao original: um tiro no pé
A decisão de realizar uma reprodução quase exata do filme animado resultou em uma obra que não se sustenta sozinha. O roteiro, reescrito pelos mesmos autores do original, Jared Bush e Dana Ledoux Miller, perde eficiência ao adicionar minutos de diálogos improvisados e cenas desnecessárias que prejudicam o ritmo natural da narrativa. O que poderia ser uma oportunidade para aprofundar o universo de Moana e explorar nuances culturais acaba sendo um desperdício de potencial.
Além disso, o clima emocional da história, fundamental para o sucesso do original, não se faz presente. O filme parece apático, como se estivesse cumprindo uma obrigação comercial, sem se importar com a experiência do público. A ausência de novidades e a repetição mecânica das cenas tornam o remake desinteressante, especialmente para quem conhece a versão animada.
Técnica e direção: o custo da busca por realismo
O aspecto visual, que poderia ser um trunfo, acaba sendo o maior ponto fraco da produção. A busca pela fotorealismo resultou em imagens que não só perdem a magia do desenho animado, como também são visualmente desagradáveis. A cinematografia é opaca e sem vida, mesmo nas cenas que deveriam celebrar a beleza natural de Motunui, filmada no Havaí.
Quando Moana parte para o mar aberto, o cenário se transforma em um emaranhado confuso de CGI mal executado, onde a profundidade e o espaço parecem desaparecer. Personagens não humanos como o galo Heihei, o porquinho Pua e o caranguejo gigante Tamatoa, que na animação tinham personalidade e humor, aqui são representados de forma desconexa e até perturbadora, destoando do restante do elenco e comprometendo a imersão.
A direção de Thomas Kail, premiado na Broadway, surpreende negativamente. Falta uma voz autoral que guie a produção, dando-lhe identidade. O filme parece um trabalho feito para cumprir tabela, sem energia ou paixão, refletindo-se em cenas que parecem filmadas em uma única tomada, sem o refinamento esperado para uma superprodução desse porte.
Elenco e música: talento desperdiçado
No elenco, Catherine Laga’aia, como Moana, demonstra potencial, mas é prejudicada pela condução morna da direção. Dwayne Johnson, conhecido por seu carisma, entrega uma atuação apagada, sem a vivacidade que marcou o personagem Maui no original. As piadas e falas repetidas soam forçadas e pouco naturais.
Outro ponto que decepciona é a trilha sonora. Embora as canções de Lin-Manuel Miranda sejam executadas com competência, a falta de emoção e o tom contido das interpretações fazem com que os números musicais percam sua força e impacto, enfraquecendo ainda mais a conexão emocional com o público.
Contextualização cultural: esforço incompleto
Um dos aspectos mais elogiados do remake foi o esforço para aprofundar a representação da cultura polinésia, com a colaboração do Oceanic Cultural Trust para garantir autenticidade na ambientação e detalhes culturais. Essa intenção é louvável e mostra uma evolução em relação ao original, que era mais superficial nesse aspecto.
No entanto, a tentativa de respeitar a cultura não se reflete na totalidade do filme. A direção, que permanece distante culturalmente, e a abordagem genérica do blockbuster acabam por tornar o esforço um gesto quase simbólico, sem impacto real. Essa incoerência entre a busca por autenticidade e a execução rasa contribui para a sensação de que o remake foi feito mais para manter a franquia lucrativa do que para contar uma história significativa.
Moana 2026: um filme que não emociona
O clímax do filme, que na animação original é visualmente deslumbrante e emocionalmente poderoso, aqui se torna um dos momentos mais apagados e visualmente menos atraentes do ano. A falta de alma e energia permeia toda a produção, deixando claro que este remake é um produto comercial sem o coração que fez do Moana original um sucesso tão duradouro.
Para os fãs da história e da cultura polinésia, esta versão live-action é uma oportunidade perdida. Sem inovação, sem emoção e com uma execução técnica questionável, o filme dificilmente deixará uma marca positiva. A única certeza que fica é que, quando se trata da mágica de Moana, a animação original continua sendo insubstituível.

