Practical Magic 2 chega como uma aposta nostálgica: retomar uma história querida por fãs de 1998 e transformá-la em uma sequência que mistura comédia de bruxas, drama familiar e aventura. O filme posiciona-se 25 anos depois dos eventos do original, trazendo Sandra Bullock e Nicole Kidman novamente como irmãs Owens enquanto a família lida com um legado de maldição e novas ameaças sobrenaturais.
A expectativa natural é ver os elementos que tornaram o filme anterior um cult — laços de irmã, momentos mágicos e uma mistura de melancolia com humor — reaparecerem com consistência. Em vez disso, a execução oscila: há cenas que funcionam emocionalmente, mas a montagem e o tom irregulares minam a proposta geral.
Contexto e premissa
O enredo principal se ancora na maldição intergeracional dos Owens: qualquer homem que uma das irmãs ame morre prematuramente. Vinte e cinco anos depois, a filha Kylie, agora adulta, enfrenta o risco de repetir a história ao declarar amor por Gideon, que é imediatamente vítima de um acidente e entra em coma. A partir desse incidente, a narrativa se divide entre a tentativa de romper a maldição e uma busca por pistas da origem da maldição, que os leva da costa americana até a Inglaterra.
Essa premissa preserva a ligação direta com o primeiro filme, mantendo personagens herdados como Frances e Jet, enquanto introduz novos elementos — um grimório em miniatura, besouros da morte como presságio e linajes perdidos que complicam a mitologia. O conflito central é adequado para uma sequência: combinar laços afetivos com uma ameaça sobrenatural cria potencial dramático, mas a forma como o roteiro escolhe explorar isso é desigual.
Para o espectador, a curiosidade é ver se a sequência honra a textura do original. Em alguns trechos, há ressonância afetiva; em outros, a sensação é de preenchimento e dispersão.
O que funciona: afetividade e cenários
Existem momentos genuínos de afetividade que sustentam o filme. A cena em que Kylie pronuncia “eu te amo” tem um impacto sincero e fornece um ancoradouro emocional para a narrativa; é uma pausa que justifica a preocupação dos personagens e do público.
Visualmente, o filme explora um tipo de luxo doméstico e viagem que pode ser apelativo: a casa à beira-mar dos Owens, cozinhas generosas, festas opulentas e pousadas inglesas cheias de almofadas e detalhes aconchegantes. Esse design de produção funciona como um elemento de escapismo —
é fácil entender por que parte do público vai celebrar o aspecto “luxury porn” da ambientação, onde a magia se mistura ao conforto material.
O que falha: tom, montagem e humor
Os problemas mais evidentes estão no tom e na edição. A narrativa alterna entre sentimentalismo, cenas de ação sobrenatural e tentativas de humor que raramente acertam. Muitas sequências parecem sustentadas por conversas sobrepostas e interrupções, criando uma sensação de ramerramento em vez de ritmo consistente.
O humor, que poderia ser o fio condutor para aliviar a melancolia, frequentemente soa forçado ou repetitivo. As interações entre as irmãs, embora centrais, caem em reclamações constantes e diálogos que não acrescentam camadas novas às personagens — ao invés disso, destacam a falta de um roteiro enxuto que saiba balancear afeto e comédia.
A edição solta e a montagem descuidada acentuam a impressão de uma produção montada às pressas, com cortes que quebram a fluidez emocional e deixam lacunas dramáticas.
Atuações e personagens secundários
As veteranas que retornam entregam carisma suficiente para manter o interesse em cena: há química palpável em momentos de cumplicidade. Ainda assim, o filme pesa demais em diálogos que repetem temas já conhecidos sobre irmandade e destino, sem aprofundar o arco das protagonistas.
Entre as adições, alguns papéis parecem inseridos para movimentar a trama sem contribuir substancialmente ao desenvolvimento — um professor que fornece exposição tardia e um jovem interesse amoroso que vira vítima do infortúnio doloroso. Essas escolhas tornam certas reviravoltas previsíveis ou pouco envolventes.
Practical Magic 2 tenta equilibrar drama e aventura, mas beneficia-se muito mais quando permite que poucos momentos chave respirem, em vez de encher o filme com subtramas paralelas.
A quem interessa ver esta sequência
Fãs devotos do filme original provavelmente encontrarão valor no reencontro com personagens queridos e em cenas de convivência entre as atrizes principais. Para esses espectadores, a sensação de nostalgia pode superar deficiências narrativas.
Por outro lado, espectadores que chegam sem afeição prévia podem perceber a montagem irregular, o humor que não funciona e o roteiro disperso como barreiras significativas. Para quem busca uma sequência que amplie e refine a mitologia original, a experiência pode ser frustrante.
Um veredito prático e o próximo passo
Practical Magic 2 é um filme que tem instantes de ternura e uma ambientação caprichada, mas que tropeça em escolhas de tom e edição que comprometem sua eficácia como comédia de bruxas e como continuação fiel. Em suma, funciona como peça de conforto para fãs nostálgicos, mas raramente se sustenta para quem procura uma sequência mais afinada.
Se você é fã do primeiro filme, a ida ao cinema pode valer pela experiência de reencontro; caso contrário, é razoável aguardar uma disponibilidade em plataformas para decidir com menor investimento.