O apocalipse em The Dog Stars chega com um ritmo que exige paciência: é um filme que alterna entre a contemplação das pequenas esperanças humanas e uma violência gráfica que explode sem aviso. Ridley Scott adapta o romance de Peter Heller para uma tela que, em muitos momentos, não consegue decidir se quer ser meditação existencial ou filme de ação sanguinário.
A primeira metade é dominada por silêncio e melancolia — e por um protagonista que carrega o peso da perda. Já o segundo ato se transforma em uma sequência de adrenalina que, paradoxalmente, faz o longa finalmente funcionar em alguns instantes decisivos.
Personagens e performances
Jacob Elordi interpreta Hig, um ex-piloto civil marcado pela morte da esposa e do filho não nascido. Sua atuação é contida, baseada em olhares e gestos mínimos; esse tom funciona para mostrar o luto, mas também limita o carisma necessário para segurar o filme quando a narrativa exige empatia contínua.
Em contraste, Josh Brolin como Bangley injeta energia: seu personagem, um ex-fuzileiro que vive com um senso ritualístico de sobrevivência, traz química imediata com Hig e momentos de humor áspero. A dinâmica entre os dois faz a primeira metade render quando Elordi sozinho torna a experiência lenta demais.
Margaret Qualley e Guy Pearce surgem no caminho do protagonista e alteram a dinâmica emocional do filme. Cima (Qualley) reabre a possibilidade de afeto para Hig, e o relacionamento entre eles traz camadas humanas que a trama tenta explorar antes da virada para o caos. Esses encontros esclarecem o tema central: como seguir em frente após uma catástrofe que desfaz laços e códigos sociais.
Estética e direção de arte
Visualmente, The Dog Stars mantém a tendência recente de Ridley Scott por enquadramentos funcionais: a câmera privilegia cobertura e clareza narrativa, em vez de composições grandiosas. Isso nem sempre é uma falha — para o tom grisáceo do mundo pós-flu, a escolha acaba sendo coerente.
Há beleza na paisagem desolada e em cenas filmadas ao ar livre; o contraste entre a natureza que persiste e a desintegração social é um elemento visual recorrente. Ainda assim, em alguns momentos o filme parece preso a uma paleta monocromática que empalidece a intensidade emocional que busca transmitir.
O design dos antagonistas — os Reapers, uma seita violenta que persegue sobreviventes — entrega um visual chocante e carregado de referências a estéticas pós-apocalípticas. Quando o filme abraça essa estética, a direção de arte cumpre seu papel de chocar e provocar tensão.
Ritmo, roteiro e a virada do segundo ato
O roteiro de Mark L. Smith investe muito tempo na construção de um clima intimista durante a primeira hora; essa escolha resulta em um primeiro ato que para muitos espectadores parecerá arrastado. A tentativa de aprofundar o luto e a vida cotidiana após o colapso social não encontra sempre ferramentas dramáticas eficientes.
No entanto, quando The Dog Stars decide acelerar, a mudança é brusca e efetiva: a segunda metade contém sequências de ação intensas e graficamente explícitas que funcionam como um choque de realidade para a narrativa. É precisamente esse choque — uma explosão de violência e perigo — que traz o filme de volta à vida em termos de entretenimento cinematográfico.
Essa oscilação, porém, é também o maior problema do longa: a alternância entre contemplação e carnificina raramente é costurada. O resultado é um filme dividido, que tem momentos de excelência na metade final mas que soa inconsistente quando avaliado como um todo.
O que funciona e o que falha
Funciona: as cenas de ação da segunda metade, a química entre Elordi e Brolin e alguns parentescos emocionais que surgem com Qualley e Pearce. Esses elementos entregam tensão real e momentos cinematográficos que valem o ingresso.
Falha: a incapacidade de equilibrar tom e tema. A primeira metade, profundamente introspectiva, não cria alicerces dramáticos fortes o suficiente para tornar crível a virada para o ultraviolento. Além disso, a direção, embora competente, evita ousadias visuais que poderiam ter unido melhor os polos do filme.
Em termos técnicos, a trilha e a montagem cumprem seu papel de modo funcional; já a escrita demora a justificar o investimento emocional do público até que o roteiro decida acelerar.
Onde isso deixa Ridley Scott
Após projetos ambiciosos recentes, The Dog Stars surge como mais uma obra de uma fase tardia de Scott marcada por acertos evocativos e falhas de coesão. Há ali material que dialoga com a filmografia do diretor — a obsessão por sobrevivência, cenários extremos e confrontos humanos — mas sem o refinamento que algumas obras anteriores apresentaram.
Para espectadores que acompanham a carreira do cineasta, o filme oferece tanto motivos para frustração quanto cenas capazes de lembrar por que Scott ainda é uma voz relevante no cinema contemporâneo.
Vale a pena ver? Próximo passo após o filme
Se sua dúvida é decidir se vale a pena assistir, considere o que você busca: quem prefere caráter contemplativo e dramas intimistas encontrará momentos valiosos, mas pode se frustrar com o ritmo. Já espectadores em busca de ação e tensão encontrarão recompensa na segunda metade.
Recomendação prática: vá ao cinema esperando um filme desigual, entre em cena pela atuação de Brolin e pelas cenas finais e considere a experiência como um trabalho imperfeito, mas por vezes vigoroso, de Ridley Scott. Se quiser aprofundar a experiência, a adaptação do romance de Peter Heller e os créditos técnicos (fotografia, montagem e música) merecem atenção.