Alguma vez você já pensou que uma sessão de gravação poderia conter mais drama do que uma perseguição de ação? Em Behemoth!, a mais recente direção de Tony Gilroy, esse deslocamento de expectativa é o motor do filme: um drama que transforma os bastidores de uma gravação de trilha sonora em palco para um estudo de personagem intenso. A história acompanha Alex Serian, um violoncelista prodigioso interpretado por Pedro Pascal, enquanto ele retorna a Los Angeles e se vê confrontado por memórias, relacionamentos prejudicados e escolhas que o definem.
No início, somos apresentados a Alex com um olhar distante que diz mais do que qualquer diálogo. Em poucos minutos fica claro que estamos diante de um protagonista cheio de falhas — carismático, autodestrutivo e emocionalmente inacessível — e que a narrativa se desenrola tanto no presente quanto em longos flashbacks que compõem os 127 minutos do filme. Esse contraste entre o ambiente controlado de uma orquestra e o caos emocional do personagem é a promessa que o filme cumpre ao longo de sua duração.
Uma performance feita para Pedro Pascal
O grande trunfo de Behemoth! é a atuação de Pedro Pascal. Aqui ele finalmente encontra um papel de cinema que parece ter sido escrito para ele: um protagonista complexo, onde sua presença magnética e uma vulnerabilidade subjacente se combinam para formar uma interpretação sólida e segura. Pascal dá a Alex uma mistura convincente de orgulho e fragilidade — seja em cenas de pura prática musical, em que ele entrega paixão autêntica, seja nas interações sociais em que sua incapacidade de se abrir se torna pungente.
A escolha de colocar o filme parcialmente em primeira pessoa, com foco constante em Alex, poderia ter se transformado em uma experiência hermética e pouco empática. Mas o roteiro de Gilroy e a direção calibrada permitem que a plateia entenda, sem desculpar, as motivações e os mecanismos de fuga do personagem. O resultado é uma performance de estrela de cinema, na qual Pascal domina cada cena sem exageros desnecessários.
O elenco de apoio e os momentos que iluminam o protagonista
Behemoth! não é um solo: o filme ganha textura graças a um elenco de apoio que equilibra e amplia o mundo de Alex. Olivia Wilde, como Carol, é especialmente memorável — uma presença explosiva que rouba cenas e introduz um humor afiado. Will Arnett entrega camadas como Andy, o irmão distante que comercia entre ressentimento e preocupação. Personagens como Bronte (Kaya Ralls), Nadia (Eva Victor) e aparições como a de Margarita Levieva contribuem para construir a teia relacional de Alex, oferecendo diferentes espelhos para suas falhas.
Esses personagens não existem apenas para preencher o pano de fundo; eles desdobram aspectos do protagonista e permitem que o filme explore as consequências humanas das escolhas de Alex. A dinâmica entre mentor e discípula, os confrontos familiares e as rupturas amorosas são tratados com economia e precisão dramática, mantendo o foco no arco emocional central.
Direção, roteiro e uso da música como fio narrativo
Tony Gilroy imprime seu estilo ao filmar músicos profissionais e ao estruturar a narrativa em flashbacks entremeados por fragmentos da trilha. A trilha sonora — com contribuições de nomes como Michael Giacchino, James Newton Howard, Henry Jackman, Alan Silvestri e Michael Abels — funciona como um elemento narrativo que aciona memórias e transforma cada gravação em catalisador de revelações. Em determinadas sequências, a música chega a operar como personagem, variando do dramático ao quase cômico, sem perder a unidade tonal do filme.
Há momentos em que o filme remete a obras anteriores sobre artistas atormentados — a comparação mais direta é com Inside Llewyn Davis —, sobretudo na forma como a arte impulsiona epifanias e frustrações. Contudo, Gilroy filtra essas influências com um olhar próprio: a montagem e a construção sonora elevam cenas cotidianas a registros quase operísticos, e mesmo as piadas sonoras ajudam a aliviar a densidade sem diluir seu poder emocional.
Pontos fortes e limitações
Entre os pontos fortes estão a atuação de Pascal, a coesão do elenco de apoio e a maneira inventiva como a música é integrada à narrativa. A direção de Gilroy demonstra controle formal e sensibilidade para adaptar momentos íntimos ao ritmo de um drama de câmera fechada.
As limitações passam por um final que pode soar um tanto simplista para quem espera ambiguidades mais duras; o desfecho opta por um fechamento que nem sempre acompanha a complexidade construída ao longo do filme. Além disso, o intenso foco em Alex pode deixar alguns personagens secundários com menos desenvolvimento do que suas funções dramáticas sugeririam.
Que tipo de público deve ver este filme
Behemoth! funciona melhor para espectadores interessados em dramas de personagem, em narrativas sobre arte e culpa, e em quem aprecia atuações centradas e direções autorais que privilegiam o estudo psicológico. Quem busca ação superficial ou ritmo alucinante pode achar a abordagem lenta demais; já quem valoriza sutileza e construção emocional encontrará muita substância aqui.
O próximo passo depois do filme
Se Behemoth! confirma Pedro Pascal em um registro de estrela dramática, resta acompanhar como esse papel influenciará suas escolhas futuras e o tipo de projetos que surgirão para ele. Para o público, o filme abre espaço para revisitar outros trabalhos sobre artistas em crise e explorar como a música pode ser usada como dispositivo narrativo em cinema contemporâneo. Assistir ao filme é, enfim, aceitar o convite de acompanhar um personagem imperfeito em sua busca por significado — e sair com perguntas que ecoam além da sala de projeção.