V/H/S/Mixtape estreia como uma entrada que finalmente faz sentido dentro da longa trajetória da franquia: a proposta musical dá ao filme uma identidade imediata e lo-fi que conversa com a tradição de found footage e com a estética analógica da série.
Apresentado no Beyond Fest, o filme se apoia em um conceito direto — segmentos que orbitam em torno da música, do som e de vídeos musicais — e usa esse fio temático para permitir variações de tom e linguagem entre diretores novos e veteranos. O resultado é, em muitos momentos, mais coeso do que as entradas anteriores.
Uma temática que funciona como mixtape
Mixtape acerta ao transformAR a própria ideia de antologia em formato: a ordenação dos curtas age como uma seleção musical, em que sequência e ritmo importam tanto quanto cada peça isolada. Esse enfoque amplia o potencial criativo dos realizadores — a temática musical é ampla o suficiente para comportar desde videoclipes excêntricos até contos mais lentos e parcialmente lovecraftianos, como os arcos de One Piece que moldaram a jornada dos piratas.
O wraparound dirigido por Flying Lotus e o envolvimento da banda GWAR aportam energia e humor escatológico no melhor estilo Troma, servindo como cola funcional que integra os episódios. A inclusão de criadores acostumados com videoclipes, como RZA e Tobias Forge, rende momentos visualmente inventivos e musicais que se sustentam mesmo fora do contexto do longa.
Pontos altos: direção, efeitos práticos e criatividade
Os melhores segmentos revelam um equilíbrio entre o tema comum e a assinatura autoral. “Dance, Dance, Dance, Dance”, de Renee Zhan e Zoe Cooper, se destaca pelo uso surpreendente da Jim Henson’s Creature Shop, aplicando efeitos de animatrônica a uma linguagem adulta e perturbadora — uma aliança rara que dá textura tátil ao terror.
Já “Death Tone”, de RZA e Matt Landsman, aposta numa mistura de exploração e estranheza: kills inventivos, efeitos práticos eficientes e uma leitura consciente dos códigos do cinema de exploração geram um curta que funciona tanto como homenagem quanto como peça autônoma. Esses momentos confirmam que a franquia continua sendo um celeiro para cineastas que transitam entre o underground e o mainstream.
Fragilidades na montagem e no ritmo
Mesmo com acertos, a natureza de antologia expõe a fragilidade mais antiga da série: sequencing. Alguns curtas soam deslocados pelo posicionamento na grade. O segmento The Music of Mr. Sze, de Ernest Dickerson, inspirado em contos de H.P. Lovecraft, aposta numa construção deliberada que perde impacto quando encaixado no meio do filme — sua cadência pedida pelo texto exigiria um espaço inicial para respirar.
Por outro lado, David Moreau entrega Heartbeat, um experimento visual que usa uma câmera fixa improvável — uma mistura de selfie stick com GoPro — e um ritmo frenético que demanda adaptação do espectador. Quando a linguagem do curta se torna familiar, já acabou; o contraste entre forma e duração evidencia a dificuldade de equilibrar diversidade com fluidez narrativa.
Elementos musicais e videoclipes como força motriz
Um dos trunfos da obra é abraçar o videoclipe como forma legítima dentro da antologia: a presença de músicos e diretores com experiência em música resulta em curtas que funcionam como videoclipes de horror. Tobias Forge, com seu projeto Repugnant e a canção "Premature Burial", entrega um trabalho que remete ao choque visual de cineastas controvertidos, aproximando o longa de uma tradição de choque estético que dialoga com o heavy metal e o horror corporal, similar ao que se vê em 6 filmes de zumbi de 2025 que renovaram o terror.
Essa tensão entre som e imagem é a melhor definição do que torna V/H/S/Mixtape atraente: quando a trilha, os ruídos e a composição visual se alinham, os curtas atingem uma intensidade rara na franquia.
O lugar de Mixtape na trajetória da franquia
Com nove filmes ao longo de 14 anos, a série sempre funcionou como vitrine para nomes que depois seguiram carreiras maiores; o renascimento em 2021 com V/H/S/94 e a experiência de 2024 com a ficção científica de V/H/S/Beyond mostram uma franquia que alterna experimentos temáticos bem-sucedidos.
Mixtape pode ser visto como a peça que consolida um período recente de acertos, mais coeso do que muitos dos filmes anteriores: o tema musical unifica sem engessar, e as escolhas de diretores e colaboradores (alguns com background em videoclipes) reforçam essa inteligência editorial.
O que esperar em seguida: roteiros que ampliam sem perder a essência
Embora V/H/S/Mixtape represente um momento de forte identidade, há uma apreensão legítima sobre os rumos da franquia: já foi anunciada uma décima entrada com ligação à organização ficcional SCP Foundation, o que pode significar um novo giro temático. A boa notícia é que a fórmula encontrada aqui — tema claro + diversidade autoral controlada — oferece um mapa para manter qualidade mesmo em mudanças de tom.
No curto prazo, o público que valoriza curtas autorais e horror experimental terá em V/H/S/Mixtape uma experiência que mistura nostalgia analógica, videoclipes e efeitos práticos eficazes. Para quem acompanha a franquia, o filme reafirma que a série ainda é um campo fértil para riscos calculados.
Veredito: uma mixtape que funciona
V/H/S/Mixtape não é isento de falhas — a montagem e o ritmo evidenciam que a antologia requer um curador mais rígido em alguns pontos —, mas entrega o que promete: uma coleção de curtas onde o som e a música são protagonistas. As melhores sequências elevam a experiência e justificam a permanência da franquia como espaço de experimentação.
Se você procura uma antologia que valorize a estética lo-fi, efeitos práticos e videoclipes autorais dentro do terror, V/H/S/Mixtape é uma aposta que vale a audição. O filme estreia em streaming e mantém a tradição da série de ser tanto porto seguro para novos talentos quanto palco para veteranos sensíveis ao experimental.