Logo nas primeiras cenas de Other Mommy, o filme impõe uma pergunta simples e inquietante: e se a figura materna pudesse ser, literalmente, uma ameaça monstruosa? A montagem rápida e a presença magnética de Jessica Chastain puxam o espectador para uma experiência de horror que mira tanto o susto primário quanto uma tristeza doméstica subjacente.
Em aproximadamente duas horas de projeção, o longa de Rob Savage alterna momentos de efeito visual intenso com trechos narrativos que soam apressados. É uma obra que depende da energia de sua protagonista e da força de seus set pieces, mas que deixa pistas de um potencial mais profundo parcialmente não explorado.
Premissa e contexto
Other Mommy adapta o romance Incidents Around the House, de Josh Malerman, e transforma a premissa central — uma criança visitada por uma presença chamada “Other Mommy” — em um thriller sobrenatural com toques de body horror. A história acompanha Bela, uma menina de sete anos, sua mãe Ursula e seu pai Russ, cuja dinâmica familiar conturbada serve como terreno fértil para o terror que se instala.
O roteiro cria uma regra simples e eficaz: o monstro, interpretado por Chastain, não pode invadir o coração da criança sem permissão. Essa limitação gera tensão consistente, porque a ameaça é simultaneamente vulnerável e onipotente — capaz de remodelar a realidade e infligir violência extrema quando necessário.
Atuação de Jessica Chastain: centro do filme
É impossível dissociar Other Mommy da performance de Jessica Chastain. Em cena, ela se entrega a uma transformação física e vocal que lembra arquetípicos do horror — alguns espectadores irão imediatamente associar certos maneirismos a Pennywise, referência reforçada por trabalhos anteriores de Chastain em Carrie de Mike Flanagan preserva detalhe do livro de Stephen King.
Chastain domina o espaço: quando o filme precisa assustar, ela assume o controle. Há momentos em que sua presença eleva sequências que, por si só, seriam apenas eficazes; a atriz consegue imprimir uma mistura de carisma e ameaça que mantém o interesse do público mesmo quando a narrativa desacelera.
Estética, efeitos e ritmo
Rob Savage e a equipe apostam pesado em efeitos visuais e maquilhagem para dar forma ao ser que persegue a família. Algumas transições de cena e composições visuais mostram criatividade, e vários sustos são bem cronometrados. Ainda assim, o trabalho de criatura pouco convence em consistência: em certos instantes, a ameaça parece poderosa e original; em outros, soa genérica.
O ritmo é um dos problemas mais evidentes. Depois de um excelente início — sequência de abertura que captura atenção — o filme tende a se esgotar em set pieces que se sucedem sem aprofundamento emocional. Essa decisão privilegia o choque momentâneo em detrimento de uma construção mais melancólica que o material fundamental sugere.
Pontos fortes
Um dos acertos mais claros é a disposição do filme em tratar a parentalidade como zona de conflito, em vez de idealizá-la. A tensão entre Ursula e Russ é palpável e justifica a vulnerabilidade da criança ao mesmo tempo em que fornece motivação dramática para os personagens.
Outro mérito é a capacidade do longa de gerar momentos de puro entretenimento de horror: sequência de violência explícita, truques de câmera e a presença de figuras coadjuvantes — como a avó de viés místico — que acrescentam textura à narrativa. Para quem busca sustos pontuais, há retorno.
Pontos fracos
O filme pecar por superficialidade em certos aspectos. A tentativa de enfiar múltiplos momentos grandiosos sem o necessário desenvolvimento emocional resulta em cenas que impressionam no instante, mas não permanecem na memória. A criatura, apesar de articulada por Chastain, não recebe um design ou motivação clara o suficiente para se tornar icônica.
A estrutura narrativa também parece apressada: personagens e subtramas são introduzidos e descartados sem exploração adequada, deixando a sensação de que havia material suficiente para uma obra mais coesa e triste — não apenas para um desfile de sustos.
E agora, vale a pena?
Other Mommy é, ao mesmo tempo, frustrante e divertido: frustrante por não explorar plenamente suas camadas dramáticas, e divertido por oferecer sequências de horror bem planejadas e uma performance central intensa. O filme funciona melhor como veículo de atuação e espetáculo visual pontual do que como exploração duradoura do medo e da parentalidade.
Se você procura uma experiência de cinema que privilegie sustos imediatos e a presença magnética de uma atriz no auge de sua entrega física, há motivos para assistir. Se busca um terror que se instale e persista após os créditos, talvez seja mais prudente esperar por opções mais sutis e emocionalmente complexas.
No fim, Other Mommy cumpre parte do que promete: entrega imagens fortes e momentos memoráveis graças a Chastain, mas deixa um rastro de perguntas sobre o que poderia ter sido uma obra realmente perturbadora e duradoura.