Unabomber chega como um thriller de época que tenta explicar a gênese de um dos terroristas domésticos mais enigmáticos dos EUA, e faz isso por meio de duas linhas temporais que se entrelaçam ao longo do filme. Desde as primeiras cenas, a proposta é clara: mostrar tanto a trajetória íntima de Ted Kaczynski quanto a perseguição implacável do FBI que se desdobra décadas depois.
O equilíbrio entre essas duas frentes define a experiência do espectador. Enquanto a narrativa ambientada em Harvard mergulha em experimentos psicológicos e relações tóxicas que moldam um jovem brilhante, a trama policial tenta entregar o procedural tensional que muitos esperam de um thriller de investigação. O resultado, porém, é desigual.
Por que a parte de Harvard funciona melhor
A porção do filme que acompanha Ted Kaczynski como adolescente em Harvard é, sem dúvida, a mais envolvente. Jacob Tremblay interpreta um jovem brilhante, socialmente desajeitado e progressivamente mais fechado, cuja frieza analítica cresce até se transformar em hostilidade para com a sociedade. Tremblay evita excessos e constrói um personagem cuja desconexão é palpável sem cair em caricaturas.
O conflito central nessa linha temporal é apresentado por meio das experiências conduzidas pelo professor Henry Murray e sua parceira Christiana Morgan. Russell Crowe incorpora Murray com um equilíbrio entre charme acadêmico e sinistridade subjacente, enquanto Annabelle Wallis oferece uma presença enigmática como Morgan. O filme explora a hipótese dramatizada de que esses experimentos — que, historicamente, foram criticados por falta de ética — podem ter contribuído para moldar a psique de Kaczynski.
A dramatização dos testes psicológicos funciona como motor narrativo: não é tanto a comprovação de uma relação causal direta entre os experimentos e a radicalização de Ted, mas sim a construção de um cenário plausível para explicar sua transformação. Essa escolha narrativa confere ao filme uma atmosfera de *dark academia* — ambientes fechados, fumaça, conversas carregadas de subtexto — que é visualmente e dramaticamente interessante.
Limites da linha do tempo do FBI
Em contraste, a trama ambientada nos anos 1990, centrada em uma agente do FBI determinada a capturar o Unabomber, soa convencional. Shailene Woodley interpreta Joanne Miller, uma agente obstinada que vê conexões que seus colegas descartam. Woodley cumpre o papel com competência, mas o material em si peca por familiaridade: investigações que avançam a passos previsíveis e cenas que lembram episódios de séries procedurais.
O maior problema aparece quando o filme intercala com frequência as duas linhas temporais. Cada corte para a investigação policial tende a reduzir a tensão construída nas sequências de Harvard, gerando uma sensação de dispersão narrativo-emocional. A parte do FBI ainda traz um elemento verdadeiro e relevante — o papel do irmão de Kaczynski no caso real — mas aqui isso vira um dado de pano de fundo em vez de um motor dramático potente.
Há momentos em que a personagem de Woodley assume iniciativas que buscam criar suspense e protagonismo, mas várias dessas escolhas soam deslocadas ou pouco verossímeis diante do conjunto maior. Assim, a tensão que se esperaria do confronto entre caçador e caça oscila em intensidade.
Roteiro, direção e atuações: o que funciona e o que falha
O roteiro, assinado por Sam Chalsen e Nelson Greaves, opta por uma abordagem concentrada em cenas-chave da formação emocional de Kaczynski, em vez de uma análise psicológica profunda. Isso deixa o público com uma imagem clara das motivações externas e das experiências formativas, mas sem acesso íntimo e extenso ao processo mental que levou à radicalização.
Unabomber ganha muito por conta da direção estética e das performances: direção de Janus Metz Pedersen confere ao filme um visual limpo e estilizado que ajuda a criar a sensação de época e tensão acadêmica. Ainda assim, quando o roteiro não encontra terreno firme — sobretudo na linha policial — a montagem tenta compensar com ritmo e variação temporal, o que nem sempre é suficiente.
Há, porém, um mérito incontestável: uma reviravolta final que consegue surpreender sem recorrer a truques óbvios. Sem revelar detalhes, esse momento aumenta a satisfação narrativa e dá ao desfecho um impacto que a alternância das linhas temporais ameaçava diluir.
Que tipo de espectador vai gostar deste filme
Se você se interessa por dramas de formação com elementos históricos e por estudos de personagens, a trama ambientada em Harvard — e a atuação central de Tremblay — provavelmente serão suficientes para justificar a sessão. O filme também pode atrair quem valoriza produções com estética cuidada e tensões sutis geradas em ambientes acadêmicos.
Por outro lado, quem busca um thriller policial puro, com investigação coesa e ritmo constante, pode se sentir frustrado pela alternância de linhas temporais e por algumas soluções narrativas genéricas na parte do FBI. Ainda assim, a produção entrega material sólido o bastante para manter o interesse até o fim.
Próximo passo para quem viu ou pretende ver
Depois de assistir, vale comparar as escolhas dramáticas do filme com os fatos conhecidos: a dramatização dos experimentos em Harvard e a decisão de contar a história em duas épocas são opções artísticas que convidam ao debate sobre responsabilidade histórica e representação. Unabomber não resolve o enigma de Kaczynski, mas oferece uma leitura crua e estilizada de sua formação.
No veredito final: é um filme que se sustenta mais pelas atuações e pela atmosfera do que por um roteiro inteiramente convincente. Para quem procura uma experiência que mistura biografia ficcional e thriller, vale a pena — com a ressalva de que a narrativa teria saído mais forte se tivesse escolhido concentrar-se em uma única linha temporal.