Verity chega com um elenco de peso e um roteiro que prometia tensão, mas rapidamente se revela uma experiência morna e arrastada. Desde os primeiros minutos, o filme aparenta preferir sussurros expositivos e montagens elegantes à construção genuína de suspense.
A premissa é direta: Lowen Ashleigh, uma escritora em dificuldades, é contratada para terminar uma popular série de thrillers de Verity Crawford — uma autora que está em estado catatônico após um acidente. Ao descobrir um manuscrito escondido, Lowen passa a duvidar das circunstâncias que cercam a família Crawford, embarcando em uma investigação que deveria render tensão psicológica, mas que, na prática, se mostra pouco eficaz.
Ritmo e tom que comprometem a experiência
O maior problema de Verity é o ritmo. Com duração de cerca de uma hora e cinquenta e oito minutos, o filme frequentemente arrasta-se em diálogos expositivos e cenas que pouco avançam a trama. Em vez de criar uma espiral crescente de inquietação, a narrativa prefere repetições: personagens murmuram teorias, lêem trechos do manuscrito e reagem de forma previsível.
Essa escolha de tom tem consequência direta no engajamento: o espectador é mantido à distância por uma sucessão de cenas estilizadas que não acumulam suspense real. Há momentos isolados de impacto — incluindo um susto bem executado — mas são exceções em uma montagem que privilegia a aparência sobre a substância.
Atuações: Hathaway salva o que pode ser salvo
Anne Hathaway surge como a grande razão para permanecer atento. Sua interpretação é intensa e calculada, transformando trechos do roteiro que poderiam cair na caricatura em momentos de tensão autêntica. Em flashbacks e cenas de leitura do manuscrito, Hathaway impõe micro-expressões e escolhas físicas precisas que provocam reações no público.
Dakota Johnson e Josh Hartnett ficam em segundo plano, com poucas camadas dramáticas a explorar. Johnson cumpre o papel de protagonista vulnerável, mas o material que lhe é dado limita suas possibilidades. Hartnett aparece como o marido enigmático, porém seu personagem é pouco aproveitado, restando-lhe gestos e silêncios mais do que desenvolvimento.
Adaptação fiel, porém prejudicial
O filme segue de maneira bastante próxima o livro que o originou, mantendo a maior parte dos beats e reviravoltas. Essa fidelidade deveria ter ajudado a preservar o núcleo dramático, mas acaba expondo as fraquezas do material original na forma cinematográfica: diálogos que funcionam em páginas íntimas perdem força quando encenados sem um ganha-público convincente.
Ao manter quase todos os elementos do romance, a direção parece limitar-se a reproduzir a fonte em vez de reinventá-la para a tela. O resultado é uma sensação de estar assistindo a uma transposição literal, onde a linguagem cinematográfica é subutilizada e a atmosfera permanece rala. A tentativa de emular o clima de thrillers psicológicos mais contundentes não se completa porque faltam escolhas formais mais ousadas.
Pontos fortes e fracos em detalhe
Pontos fortes: a atuação de Anne Hathaway é consistente e memorável; há cenas isoladas em que o cinema funciona, com sustos e pequenas vitórias de montagem; a produção visual é cuidadosa, com estética que sustenta o tom de thriller.
Pontos fracos: ritmo irregular e diálogos expositivos que consomem o tempo do filme; personagens secundários subdesenvolvidos; dependência excessiva da revelação do manuscrito como motor principal da narrativa; sensação geral de que o material poderia ter sido mais enxuto e incisivo.
Além disso, a obra carrega uma sensação de déjà-vu: nomes extravagantes e escolhas narrativas que tentam emular sucessos anteriores do gênero, sem, contudo, alcançar a mesma capacidade de provocar ou surpreender o público. Em tela, isso se traduz em cenas que parecem destinadas a chocar, mas que, fora de contexto e sem sustentação dramática, soam vazias.
Qual é o veredito?
Verity é um filme que tem meios simples para entreter um público amplo — elenco conhecido, estrutura de thriller e momentos de choque — mas que falha em alinhá-los de modo convincente. Ainda que Anne Hathaway ofereça uma performance que salva parte do longa, o conjunto peca pela falta de tensão acumulada e pela fidelidade cega à obra original, que aqui não se traduz em cinema eficaz.
Para quem busca um thriller psicológico ágil e surpreendente, Verity provavelmente decepcionará. Já espectadores curiosos por ver Hathaway em um papel de vilania delicada podem encontrar alguma satisfação. Em termos objetivos, o filme entrega menos do que promete: estilo sem substância, momentos em vez de arco, e uma narrativa que volta demasiadas vezes ao mesmo ponto.
Se quiser seguir adiante
Se a intenção é ver Verity pelas atuações, especialmente pela performance de Anne Hathaway, a ida ao cinema pode valer. Mas para quem espera um thriller psicológico tenso e bem calibrado, há motivos para esperar por outras opções ou revisitar clássicos do gênero que ainda preservam o equilíbrio entre mistério e impacto emocional.
Avaliação indicativa: 2 de 10. O filme estreia em outubro de 2026.