Animals chega com a promessa de um thriller de tensão e, ao mesmo tempo, traz um curioso encontro entre veteranos do extinto universo DC. Logo nas primeiras cenas, o filme posiciona Ben Affleck não apenas como protagonista, mas também como diretor e coautor do roteiro — uma presença onipresente que determina o ritmo e os tons do longa.
Para quem acompanha a trajetória recente dos envolvidos, há um componente extra de interesse: Ray Fisher, conhecido por seu papel como Cyborg na era Snyder do universo DC, reaparece em um papel pequeno, reunindo brevemente colaboradores que, por anos, trabalharam em franquias de grande porte. Esta revisão avalia o filme em seus méritos próprios, aponta os acertos e falhas da produção e conclui se o filme justifica a expectativa criada.
Contexto e montagem do elenco
Affleck interpreta Mark Kimball, um candidato a prefeito cuja vida pessoal vira foco central do enredo quando a esposa, Abigail Kimball (interpretada por Kerry Washington), envolve-se em um caso extraconjugal. Ray Fisher aparece como Ron Sperling, o homem com quem Abigail tem o relacionamento. Embora a presença de Fisher funcione como um atrativo para fãs que lembram de sua parceria com Affleck em projetos anteriores, o filme o utiliza de forma limitada: ele aparece fisicamente em apenas uma cena significativa e depois permanece presente sobretudo via mensagens de texto que alimentam a tensão dramática.
O curioso histórico de bastidores — incluindo a trajetória conturbada de Justice League e as acusações feitas por Fisher contra práticas abusivas em set — adiciona uma camada interpretativa ao reencontro. Ben Affleck explicou por que a versão teatral de Justice League não funcionou, o que ajuda a entender a dinâmica entre os envolvidos. Ainda assim, essa carga extratextual não substitui a necessidade de o filme oferecer sustância dramática suficiente para justificar o reencontro no plano narrativo.
Pontos fortes: direção, elenco e fotografia
Há méritos inegáveis em aspectos técnicos e em escolhas de atuação. A direção de Affleck demonstra nervo ao explorar os cantos sombrios da escalada emocional de um casal público, e Kerry Washington entrega uma performance consistente como Abigail, captando a ambiguidade moral de sua personagem. Em termos visuais, a fotografia assinada por Robert Elswit — vencedor do Oscar — confere ao filme uma aparência polida e, por vezes, inquietante, destacando sombras e enquadramentos que amplificam a sensação de claustrofobia moral.
Algumas sequências alcançam intensidade graças ao trabalho de composição e à montagem que tenta equilibrar o suspense psicológico com toques de humor negro. Esses elementos sugerem que, por trás da narrativa áspera, há uma equipe técnica capaz de compor cenas visualmente fortes e, ocasionalmente, memoráveis.
Pontos fracos: roteiro, ritmo e aproveitamento de personagens
O maior problema de Animals está no roteiro e no ritmo. A trama oscila entre ser um estudo de caráter e um thriller político, sem se decidir integralmente por nenhum dos caminhos. Isso resulta em passagens que soam dispersas ou desnecessárias, prejudicando a coesão da narrativa. A inclusão de subtramas e a alternância de tom deixam o longa com uma sensação de fragmentação — como se versões diferentes do projeto tivessem competido pela tela.
Além disso, o aproveitamento de Ray Fisher é frustrante: servir majoritariamente como gatilho para o conflito conjugal e depois desaparecer em forma de mensagens limita tanto o arco do personagem quanto a oportunidade de explorar mais profundamente a dinâmica entre ele e Abigail. Dado o histórico de ambos os atores, era legítimo esperar uma colaboração mais substancial.
Outro ponto que distrai é a controvérsia em torno do uso de inteligência artificial na produção: Affleck afirmou ter empregado IA, mas não detalhou sua aplicação, o que deixou críticas questionando a transparência ética do processo. Essa sombra tecnológica acaba por somar-se aos problemas narrativos, fazendo o longa parecer, por vezes, um experimento com resultados inconsistentes.
Veredito: vale a pena assistir?
Animals oferece momentos técnicos e atuações que merecem reconhecimento, em especial de Kerry Washington e de uma direção que tenta provocar desconforto moral. No entanto, o conjunto não se sustenta: o roteiro fragmentado, o ritmo irregular e o desperdício de potencial de atores como Ray Fisher impedem que o filme chegue a algo maior. Para fãs da trajetória dos envolvidos, há curiosidade e algum interesse sentimental; para quem busca um thriller bem amarrado, a experiência tende a decepcionar.
Se houve otimismo inicial sobre uma reunião criativa entre nomes ligados ao antigo universo DC, a execução aqui não corresponde às expectativas. Resta a esperança de que Affleck refine sua voz como diretor em projetos futuros e aproveite melhor colaborações promissoras, talvez dando a Fisher papéis que explorem mais seu alcance dramático.
O próximo passo lógico para o elenco
Depois de assistir Animals, o caminho mais produtivo para todos os envolvidos seria transformar as lições deste filme em escolhas mais claras de projeto: roteiros mais coesos, personagens melhor aproveitados e transparência criativa sobre técnicas de produção. Para o espectador curioso, a recomendação é ver o filme com expectativas moderadas: há acenos técnicos e momentos de atuação que valem a conferida, mas o pacote final decepciona quem espera um thriller redondo.